Menos Fios

Como verificar uma informação antes de acreditar (e de reenviar)

É comum associar a desinformação a fotografias manipuladas, vídeos falsos ou conteúdos criados por inteligência artificial. No entanto, uma das formas mais eficazes de enganar é muito mais simples: usar conteúdo verdadeiro num contexto falso.

Uma fotografia pode ser autêntica, mas ter sido captada noutro local ou noutra data. Um vídeo pode ser verdadeiro, mas a descrição que o acompanha pode distorcer completamente o seu significado. Neste caso, a mentira não está no conteúdo, mas no contexto que lhe foi atribuído.

Verificar informação não exige conhecimentos de jornalismo ou análise forense. Exige, sobretudo, alguns hábitos simples. Antes de acreditar e, principalmente, antes de partilhar, importa fazer as perguntas certas.

Ler lateralmente, em vez de confiar na aparência

Um estudo da Universidade de Stanford comparou a forma como historiadores, estudantes universitários e verificadores profissionais de factos avaliavam fontes na Internet. Os verificadores obtiveram melhores resultados graças a uma diferença essencial no método utilizado: em vez de permanecerem na página em análise, procuravam informação sobre essa fonte noutros locais.

Os investigadores designaram esta estratégia por leitura lateral.

Enquanto algumas pessoas analisavam o aspecto do site, o texto e a apresentação para decidir se a fonte parecia credível, os verificadores abriam outras páginas e procuravam o que fontes independentes diziam sobre aquela publicação.

A conclusão é simples: um site não deve ser avaliado apenas pelo que diz sobre si próprio. Uma página visualmente profissional pode publicar informação falsa, tal como um site menos sofisticado pode apresentar informação correcta.

A credibilidade deve, por isso, ser confirmada através de fontes externas e independentes.

Regra 1: separar a fonte da informação

A credibilidade de quem transmite uma informação e a veracidade dessa informação são questões diferentes.

Uma fonte habitualmente credível pode cometer erros. Da mesma forma, uma fonte desconhecida pode divulgar informação verdadeira. Por isso, ambas devem ser avaliadas separadamente.

Perante uma afirmação importante, coloque duas perguntas:

  • Quem está a dizer isto?
  • Como sabe que é verdade?

Uma página nas redes sociais que afirma que determinada autoridade iniciou uma investigação não é a própria autoridade. Até existir acesso ao comunicado, documento ou declaração original, temos apenas uma referência indirecta.

O mesmo cuidado deve existir perante fontes que tenham interesses directos no assunto. Uma empresa pode falar sobre o próprio produto, uma organização sobre a sua actividade ou uma das partes de um conflito sobre o seu adversário. A informação pode estar correcta, mas deve ser confrontada com fontes independentes.

Segurança Operacional: proteger o que mporta, sem exageros

Um exercício simples ajuda: “Isto é [fonte] a dizer que [afirmação].”

Esta separação permite perceber rapidamente onde pode estar a fragilidade da informação.

Regra 2: chegar à fonte original

“Vi em vários sítios” não significa necessariamente que uma informação esteja confirmada.

Dez páginas podem repetir exactamente a mesma alegação e todas dependerem de uma única origem. Nesse caso, não existem dez fontes independentes. Existe apenas uma fonte reproduzida dez vezes.

Antes de considerar uma informação confirmada, importa perceber se diferentes fontes chegaram à mesma conclusão através de caminhos realmente independentes.

Três verificações podem ajudar:

  1. Procure a origem. Descubra de onde veio a informação. Se todas as publicações remetem para a mesma fonte, existe apenas uma origem.
  2. Procure erros repetidos. O mesmo número incorrecto, a mesma gralha ou uma frase invulgar em diferentes artigos pode indicar que houve reprodução do mesmo conteúdo.
  3. Analise os interesses envolvidos. Fontes com objectivos semelhantes podem apresentar a mesma versão dos acontecimentos sem constituírem confirmações independentes.

Esta regra também se aplica às notícias tecnológicas. Vários sites podem anunciar a mesma vulnerabilidade de segurança, mas todos podem ter como origem um único boletim técnico. Nesse caso, o boletim original é a principal referência; os restantes artigos são fontes secundárias.

Regra 3: verificar imagens e vídeos

Uma fotografia demonstra que determinada imagem foi captada. Não prova que a legenda que a acompanha seja verdadeira.

O primeiro passo deve ser uma pesquisa inversa da imagem. Ferramentas como o Google, Bing, Yandex ou TinEye podem ajudar a descobrir se a mesma fotografia já apareceu anteriormente na Internet e em que contexto.

Se uma imagem apresentada como actual já circulava há vários anos, ou se foi publicada originalmente noutro país, existe um forte motivo para desconfiar da nova legenda.

Nos vídeos, ferramentas como a InVID-WeVerify podem auxiliar a análise através da separação do vídeo em fotogramas, o que facilita a pesquisa individual das imagens. É particularmente útil para descobrir conteúdos antigos reutilizados ou apresentados fora do contexto original.

Quando a pesquisa inversa não oferece uma resposta clara, procure elementos que possam ser comparados com o mundo real:

  • Terreno e horizonte: montanhas, costa ou características geográficas;
  • Infra-estruturas: pontes, estradas, torres, edifícios ou postes;
  • Texto visível: matrículas, placas, nomes de estabelecimentos, idioma ou grafia;
  • Sombras: podem ajudar a avaliar a coerência entre local, hora e data alegados;
  • Elementos datáveis: modelos de veículos, obras, cartazes ou acontecimentos identificáveis.

Também é importante não atribuir demasiada importância aos metadados. Muitas plataformas removem estas informações quando uma fotografia ou vídeo é carregado, pelo que a sua ausência, por si só, não prova qualquer manipulação.

Mais importante do que procurar pequenos defeitos nos píxeis é perceber de onde veio o conteúdo, quando apareceu e em que contexto foi publicado pela primeira vez.

Regra 4: desconfie da reacção emocional

A desinformação torna-se particularmente eficaz quando desperta emoções fortes, como medo, raiva ou indignação.

Uma mensagem que provoca uma reacção imediata pode levar o utilizador a partilhá-la antes de verificar se é verdadeira. Por isso, quanto maior for a vontade de reagir de imediato, maior deve ser o cuidado.

A regra é simples:

Se uma publicação lhe provocar indignação imediata, pare antes de partilhar.

A emoção não confirma a informação. Pelo contrário, pode tornar mais difícil avaliá-la de forma crítica.

Também vale a pena observar o que não aparece. Se uma alegação for extremamente relevante, mas nenhuma fonte credível ou autoridade relacionada com o assunto fizer referência ao caso, essa ausência merece atenção. Não prova que a informação seja falsa, sobretudo perante acontecimentos muito recentes, mas justifica cautela.

Quando for necessário corrigir informação falsa, é preferível explicar claramente o que aconteceu na realidade, em vez de repetir várias vezes a alegação falsa.

30 segundos antes de partilhar

Antes de carregar em “reencaminhar” ou “partilhar”, faça cinco perguntas:

  1. Qual é a origem?
    Consigo encontrar a primeira fonte da informação?
  2. Quem afirma isto e como sabe?
    A fonte tem acesso directo aos factos ou limita-se a repetir terceiros?
  3. A imagem ou o vídeo é realmente actual?
    Uma pesquisa inversa pode revelar se o conteúdo é antigo ou pertence a outro contexto.
  4. Existem fontes verdadeiramente independentes?
    Várias publicações não significam várias confirmações quando todas dependem da mesma origem.
  5. Porque me provoca uma reacção tão forte?
    Se a emoção surgiu antes da verificação, há ainda mais razões para confirmar os factos.

Verificar não significa desconfiar de tudo

É impossível verificar cada informação que encontramos ao longo do dia. Também não é necessário.

O objectivo não é substituir a confiança pela desconfiança permanente. Ceticismo saudável não significa rejeitar tudo, mas saber quando devemos exigir mais provas.

O esforço de verificação deve concentrar-se sobretudo na informação que:

  • influencia uma decisão;
  • será partilhada com outras pessoas;
  • pode afectar a reputação ou a segurança de alguém;
  • envolve assuntos sensíveis;
  • provoca uma reacção emocional imediata.

Para conteúdos menos relevantes, uma dúvida prudente pode ser suficiente.

A regra mais simples

A desinformação não ganha força apenas por causa de quem a cria. Ganha força através de cada pessoa que a partilha sem confirmar a sua origem.

Uma fotografia verdadeira com uma legenda falsa, um vídeo antigo apresentado como actual ou uma notícia repetida por dezenas de páginas pode adquirir credibilidade simplesmente porque circula muito.

Por isso, perante uma informação que não conseguiu confirmar, a atitude mais responsável é também a mais simples: não partilhe.

Não porque tenha provas de que é falsa, mas porque ainda não tem razões suficientes para acreditar que é verdadeira.

Exit mobile version