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LAPSUS$, o grupo hacker que redefiniu ataques sem malware

Um caso recente que preocupou os especialistas da área envolveu um suposto vazamento de dados da AstraZeneca, farmacêutica responsável por uma das vacinas contra a covid-19. O grupo alegou ter invadido os sistemas da empresa e roubado aproximadamente 3 GB de dados internos, que passaram a ser comercializados em fóruns clandestinos. O Brasil também não escapou às acções do LAPSUS$: em 2022, os hackers atacaram os sistemas do Ministério da Saúde do país, com ligação directa a membros activos em território brasileiro.

Quem é o LAPSUS$ e como surgiu

Em actividade desde 2020, o LAPSUS$ é um grupo de hackers que começou a atrair atenção internacional através de invasões de elevado impacto. O que mais projetou o nome do grupo no meio criminoso foi a abordagem expansiva e agressiva aplicada nos seus ataques contra grandes empresas, sobretudo as do sector tecnológico.

Ao contrário dos grupos de ransomware, o foco do LAPSUS$ residia no roubo de códigos-fonte e de dados sensíveis, de forma deliberadamente ruidosa e sem qualquer preocupação com o sigilo. O período mais intenso das operações decorreu entre 2021 e 2022, com uma vaga de ataques que causou prejuízos significativos às vítimas.

Face à dimensão da ameaça, o LAPSUS$ acabou por ser investigado pela polícia internacional e pelo FBI, que fizeram uma descoberta surpreendente: a maioria dos seus membros era adolescente. As investigações identificaram ainda jovens residentes no Reino Unido e no Brasil, com uma capacidade impressionante para executar esquemas altamente complexos.

Os ataques que colocaram o LAPSUS$ no mapa

O LAPSUS$ ganhou notoriedade no mundo do cibercrime através de ataques digitais contra grandes empresas tecnológicas. Em 2022, o grupo invadiu a Microsoft e conseguiu aceder ao código-fonte do Bing, do Cortana e do Bing Maps, com o roubo de cerca de 37 GB de dados.

Outro ataque emblemático visou a Nvidia, com a extracção de 1 TB de dados, incluindo informações sobre placas gráficas, controladores e tecnologias futuras, o que desencadeou uma investigação por parte do FBI.

No caso brasileiro, em 2021, o Ministério da Saúde foi atacado pelo LAPSUS$, que colocou o ConecteSUS (actualmente designado Meu SUS Digital) fora de serviço, comprometendo dados sobre a vacinação contra a Covid-19.

O que torna o LAPSUS$ um caso único e como actua

Para conquistar fama tão rapidamente, o LAPSUS$ assentou a sua acção numa combinação letal de engenharia social e táticas de extorsão.

Em traços gerais, o grupo invade sistemas de dentro para fora, mediante o pagamento a funcionários das empresas visadas para que cedam as suas credenciais. Desta forma, os criminosos dispensam a disseminação de malware, bastando recorrer à persuasão ou à coerção para obter dados sigilosos das organizações. Outras práticas recorrentes incluem o roubo de código-fonte, a exposição pública de informação confidencial em fóruns clandestinos e a exploração de falhas humanas e de vulnerabilidades nos sistemas de autenticação multifactor.

Por que razão o LAPSUS$ ainda tem peso

Embora a realidade actual seja distinta da de anos passados, o nome do grupo continua a causar preocupação entre os especialistas, em grande medida devido à reputação que os hackers construíram ao longo do tempo.

As investigações policiais conduziram à detenção de vários membros e ao enfraquecimento da operação original, mas esses desenvolvimentos não foram suficientes para encerrar o grupo de vez. Renovado, o LAPSUS$ mantém-se activo, como demonstra o recente caso da AstraZeneca.

O que as empresas podem aprender com o caso LAPSUS$

Ainda que o LAPSUS$ não seja o mesmo de outrora, continua a causar danos consideráveis. As empresas devem, por isso, encarar o assunto com atenção redobrada, de modo a preservar a integridade das suas operações face a possíveis ameaças.

Entre as medidas recomendadas contam-se a protecção das credenciais dos colaboradores, a revisão frequente de acessos, a adopção de sistemas de autenticação multifactor mais robustos e a redução da exposição dos colaboradores a táticas de engenharia social.

Em última análise, mais do que uma organização criminosa comum, o LAPSUS$ conquistou o mundo do crime ao demonstrar que os ataques digitais não exigem necessariamente a utilização de malware para serem bem-sucedidos. O acesso legítimo combinado com a exposição pública pode ser tão destrutivo quanto qualquer outro método.

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