Menos Fios

A Cloud não está no céu, está no fundo do oceano

Mais de 95% do tráfego internacional de dados incluindo internet, ligações telefónicas, transmissões de vídeo e serviços em nuvem é realizado por cabos submarinos de fibra óptica. O que chamamos de “cloud” seja o Google Drive, o Microsoft Azure, a Netflix ou o WhatsApp depende fisicamente dessa infraestrutura invisível

Os cabos submarinos são instalados no leito do oceano por navios especializados, que conectam estações de terra. No centro, possuem fibras de vidro para transmitir dados rapidamente, enquanto camadas externas protegem toda a estrutura. Além de dados, transportam também electricidade e interligam as redes de energia de diferentes países.

Segundo o Telegeography, mais de 436 cabos submarinos estão espalhados pelo mundo que totalizam cerca de 1,3 milhão de quilômetros de conexão. O cabo Dunant, da Google, que liga a Virgínia à França, chegou a ser o de maior capacidade do mundo, com 250 terabits por segundo.

Durante décadas, os cabos foram geridos por consórcios de telecomunicações. A última década trouxe uma virada: empresas como Google, Meta, Microsoft e Amazon passaram a financiar directamente novas rotas, assumiram o controlo estratégico sobre a espinha dorsal da internet.

Os projectos em curso são de escala histórica:

A motivação é clara: as empresas querem dar conta da demanda por conexão e largura de banda na internet, principalmente com a expansão no uso da inteligência artificial.

África é um dos continentes menos conectados do mundo, contrariamente à Europa e à América do Norte, e os cabos submarinos seguem maioritariamente as rotas marítimas mais utilizadas pelos navios comerciais.

Angola é, talvez sem que a maioria dos seus cidadãos o saibam, um ponto estratégico desta infraestrutura global. Luanda serve de ponto de aterragem para vários cabos que ligam a costa ocidental africana à Europa e às Américas, entre os quais o WACS (West Africa Cable System), o SAT-3 e, mais recentemente, o sistema 2Africa.

O 2Africa cujo arranque operacional ocorreu no final de 2025, representa um salto qualitativo sem precedentes para o continente. Com 45.000 quilómetros de extensão e uma capacidade de 180 Tbps, o sistema supera, em conjunto, toda a capacidade dos cabos submarinos que serviam África até então. Para Angola, este cabo aterra no site Kanda, em Luanda, através de uma estação de aterragem construída de raiz pela UNITEL que é única operadora angolana envolvida no consórcio.

A Angola Cables, por seu lado, opera os cabos SACS (South Atlantic Cable System), MONET e WACS, posiciona o país como hub de interligação entre África, América Latina e Europa. Em Maio de 2026, a empresa anunciou uma parceria com a norte-americana Uniti Wholesale para expandir a conectividade transatlântica, reforçando a capacidade disponível para operadores, empresas e fornecedores de conteúdos em toda a região.

O Corredor do Lobito como oportunidade estratégica

Angola não está apenas no oceano está também no continente. E esta posição dupla confere ao país uma vantagem única no tabuleiro da conectividade africana. O Corredor do Lobito, projecto de reabilitação ferroviária que liga o litoral angolano à República Democrática do Congo e à Zâmbia, é também uma oportunidade para a implementação de um backbone de fibra óptica terrestre que transformaria Angola num verdadeiro hub regional de dados.

Tal infraestrutura permitiria criar rotas alternativas para dados provenientes do interior do continente, aumentar a resiliência da rede regional e reduzir a dependência de pontos únicos de falha. Num contexto geopolítico em que o controlo das infraestruturas digitais se torna cada vez mais estratégico, Angola começa a afirmar-se como actor relevante no Atlântico Sul.

Os incidentes recentes, como os cortes de cabos no Mar Vermelho e actividades suspeitas no Mar Báltico, demonstraram como é relativamente fácil perturbar a conectividade intercontinental, seja através de atos deliberados de sabotagem, seja por acidentes marítimos comuns, como o arrastamento de âncoras por navios mercantes

A cloud tem endereço e parte dele é angolano

Da próxima vez que guardar um ficheiro na nuvem ou fizer streaming de um vídeo, lembre-se: aqueles dados muito provavelmente atravessaram o Atlântico pelo fundo do oceano, passaram por uma estação de aterragem em Luanda ou Cacuaco, percorreram centenas de quilómetros de fibra óptica terrestre, e só depois chegaram ao servidor de uma empresa tecnológica algures na Europa ou nos Estados Unidos.

A “nuvem” não flutua. Tem peso, tem profundidade, tem coordenadas geográficas. E Angola faz parte dessa equação, não como espectador, mas como ponto de passagem obrigatório de uma das infraestruturas mais críticas do século XXI.

Exit mobile version