Com uma capacidade projectada de até 180 terabits por segundo (Tbps), o sistema supera, em conjunto, todos os cabos submarinos actualmente ao serviço do continente africano. Esta capacidade tem potencial para transformar a conectividade de mais de três mil milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo cerca de 1,4 mil milhões de residentes em África, e coloca o continente como um centro estratégico do tráfego global da Internet, deixando de ser apenas um corredor de trânsito.
No entanto, a presença do 2Africa por si só não determina o sucesso. Os Estados africanos, reguladores, empresas, prestadores de serviços, inovadores e cidadãos devem aproveitar activamente esta infra-estrutura para gerar valor, aumentar a productividade e impulsionar a inclusão digital.
2Africa, empresas de telecomunicações africanas e potencial económico
O sistema de cabos submarinos 2Africa é uma rede de última geração que oferece capacidade avançada de banda larga e redundância. A sua capacidade de design de 180 Tbps pode suportar milhões de transmissões simultâneas de vídeo de alta definição, serviços na nuvem, redes empresariais e outras aplicações com uso intensivo de dados.
Desenvolvido ao longo de seis anos por um consórcio de empresas de telecomunicações globais e africanas, o 2Africa inclui a Meta Platforms (anteriormente Facebook) como patrocinadora principal, a China Mobile International, a Orange S.A., a Telecom Egypt, o STC Group (center3) e a West Indian Ocean Cable Company (WIOCC). As empresas de telecomunicações africanas são fundamentais para o projecto: a MTN GlobalConnect (Bayobab) liderou as instalações em Gana e na Nigéria, a Vodacom supervisionou várias instalações na África do Sul, enquanto em Angola a operadora Unitel firmou a perceira com o cabo 2Africa.
Além do investimento financeiro, as operadoras envolvidas contribuíram de forma técnica, com a construção de estações de amarração, redes de backhaul e pontos de acesso para operadores, permitindo a integração da capacidade internacional nas redes nacionais. A produção e instalação do cabo ficaram a cargo da Alcatel Submarine Networks, num processo que exigiu coordenação regulatória intensa em mais de 50 jurisdições.
O impacto económico previsto é significativo. Estudos independentes indicam que o projecto 2Africa pode acrescentar entre 26,2 e 36,9 mil milhões de dólares ao Produto Interno Bruto de África num prazo de dois a três anos. Experiências anteriores demonstram efeitos positivos claros da conectividade por fibra submarina, incluindo aumentos do PIB per capita, crescimento do emprego qualificado e criação de novos postos de trabalho em vários países africanos. Estes resultados confirmam que o reforço da conectividade internacional impulsiona o crescimento económico, a adopção de serviços digitais e o emprego, colocando as operadoras africanas numa posição estratégica para liderar esta transformação.
“Verifica-se que a nossa solução Clouds2Africa, quer ao nível dos nós quer da infra-estrutura, está localizada em África e nos próprios países africanos. O nosso objectivo passa por alinhar a estratégia com a soberania dos dados, mantendo a informação dentro de cada país e no continente. Para 2025 e 2026, está prevista a expansão de mais soluções locais de infra-estrutura de cloud em África. A ideia central consiste em desenvolver soluções de cloud ajustadas ao mercado africano e assegurar que os dados e a informação permanecem localmente.” Sudhir Juggernath, CEO da Telcables Africa do Sul
O que África deve fazer para além da chegada do cabo
Um cabo submarino, por mais elevada que seja a sua capacidade, não garante por si só uma transformação económica se as infra-estruturas nacionais e regionais forem frágeis ou fragmentadas. Especialistas referem frequentemente o problema da chamada “economia de trânsito”, em que os dados atravessam África, mas o valor da cadeia digital desenvolve-se maioritariamente fora do continente. Para tirar pleno proveito destes investimentos, África precisa de pensar para além do simples trânsito de dados.
Investir em centros de dados locais e ecossistemas de cloud
Menos de um por cento da capacidade global de centros de dados está localizada em África, apesar de o continente concentrar cerca de 18 por cento da população mundial. A expansão de centros de dados locais e de infra-estruturas de edge computing permite que empresas e instituições retenham valor internamente, reduzindo a dependência do processamento no exterior. Parcerias entre grandes fornecedores globais de serviços de cloud e operadores africanos podem acelerar este crescimento, reforçar a soberania dos dados e apoiar o desenvolvimento de serviços digitais modernos para empresas e startups.
Reforçar as redes nacionais e o acesso de última milha
A capacidade de um cabo submarino só tem impacto real se as redes nacionais conseguirem distribuí-la a residências, empresas e instituições. Governos africanos, operadores de telecomunicações e investidores em infra-estruturas precisam de expandir as redes de fibra terrestre, modernizar o acesso móvel em 4G e 5G e acelerar a implementação de soluções de banda larga fixa. Reduzir a distância entre a capacidade disponível e o acesso efectivo é essencial para garantir benefícios tanto às populações urbanas como às rurais.
Alinhar políticas públicas e regulação para o crescimento digital
Os quadros regulatórios devem promover o acesso aberto, a concorrência justa e a partilha de infra-estruturas. O sistema 2Africa assenta no princípio de acesso aberto, assegurando que os operadores das estações de amarração disponibilizam capacidade grossista de forma equitativa. A harmonização regulatória entre países, leis claras de protecção de dados e incentivos ao investimento revelam-se igualmente determinantes para estimular um ecossistema digital competitivo.
Desenvolver competências e capital humano digital
Infra-estruturas de elevada capacidade perdem eficácia sem profissionais qualificados para as utilizar. Os sistemas de ensino, os programas de formação profissional e as parcerias público-privadas devem apostar no desenvolvimento de competências em programação, engenharia de redes, computação em cloud, cibersegurança e ciência de dados. Uma força de trabalho qualificada é fundamental para maximizar o valor da infra-estrutura digital e promover um ecossistema de inovação sustentável.
Para que África impulsione a inovação e a competitividade digital, precisamos de investir na formação de talentos tecnológicos entre os nossos jovens. Este desenvolvimento de competências digitais não deve apenas responder à procura a curto prazo das organizações dos setores público e privado, mas também antecipar o potencial futuro da economia digital do nosso continente. Matimba Mbungela, Director de Recursos Humanos, Vodacom Group
A chegada do cabo submarino 2Africa proporciona à África uma base estratégica para a economia digital do continente. Não é uma garantia de transformação nem apenas um marco técnico. A verdadeira oportunidade reside na criação de políticas, investimentos, competências e ecossistemas de inovação com base nesta infra-estrutura.
Se África aproveitar o 2Africa de forma propositada, o continente poderá deixar de ser principalmente um ponto de trânsito nos fluxos globais de dados e tornar-se um centro dinâmico e compectitivo de valor económico digital. A oportunidade é clara; a tarefa agora é agir com visão, coordenação e compromisso.