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Angola avança na Inteligência Artificial, da experiência à infraestrutura

Assim como aconteceu em anteriores ciclos de transformação tecnológica m Angola, é o sector financeiro que assume a liderança. O Banco Angolano de Investimentos deu um passo significativo com o lançamento da Luena, um assistente virtual que representa mais do que um simples chatbot. Trata-se do primeiro sinal de uma nova geração de agentes digitais que, à semelhança do que já acontece em mercados mais avançados, poderá evoluir para desempenhar funções de gestão de atendimento digital e aconselhamento financeiro personalizado.

O Millennium Atlântico e o Standard Bank Angola seguem uma trajectória semelhante, com este último a explorar soluções assentes em agentes digitais autónomos. Do lado da supervisão, o Banco Nacional de Angola (BNA) já utiliza sistemas automatizados de deteção de fraude. Este caso de uso é particularmente relevante porque exige a recolha, o transporte e a análise de grandes volumes de dados transaccionais em tempo quase real. Sem uma infraestrutura de rede robusta e resiliente, nenhuma destas soluções consegue operar com eficácia.

Petróleo, Estado e saúde

No sector petrolífero, a inteligência artificial já desempenha um papel activo na optimização das operações. A SLB (antiga Schlumberger), presente em Angola há mais de cinco décadas, inaugurou em Luanda o seu Africa Performance Center, onde utiliza IA para monitorizar e gerir remotamente actividades de exploração. No Bloco 15, a ExxonMobil reduziu em cerca de 60% o tempo necessário para realizar inspecções através da utilização de drones autónomos e sistemas de visão computacional. Por sua vez, a TotalEnergies recorre ao processamento inteligente de dados sísmicos 3D, alcançando ganhos de eficiência na ordem dos 30%.

Estes exemplos demonstram como a inteligência artificial pode gerar benefícios concretos através da manutenção preditiva, da optimização operacional e da maximização do desempenho de activos produtivos, sobretudo em campos petrolíferos maduros.

No sector público, um dos marcos mais relevantes foi a inauguração do novo data center e plataforma cloud do Estado, resultado de um investimento de 89 milhões de dólares, concebido para integrar informação e serviços de diferentes organismos governamentais. Na Assembleia Nacional, sistemas de reconhecimento de voz permitem transcrever automaticamente as sessões parlamentares, acelerando a produção de actas e reforçando a eficiência administrativa.

Na área da saúde, a TIS Tech tem vindo a desenvolver um ecossistema digital assente na integração entre software e inteligência artificial, criando soluções de apoio ao diagnóstico e à gestão clínica. Embora ainda numa fase de consolidação, estas iniciativas evidenciam o potencial da IA para melhorar a qualidade e a acessibilidade dos serviços de saúde.

A barreira que ninguém pode ignorar

É precisamente neste ponto que reside o maior desafio. Toda esta camada de inovação assenta sobre uma base estrutural que continua a revelar fragilidades significativas.

Segundo dados do INACOM, apenas cerca de 48% da população dispõe de acesso regular à Internet, com uma forte concentração da conectividade nos principais centros urbanos. A cobertura 5G abrange apenas cerca de 34% dos habitantes e a disponibilidade de energia eléctrica continua desigual em várias regiões do território.

Num contexto marcado pela Indústria 4.0, onde convergem tecnologias como a Internet das Coisas (IoT), o Big Data e a Inteligência Artificial, a conectividade deixou de ser um factor secundário. A qualidade, a cobertura e a estabilidade das redes são hoje elementos essenciais para a competitividade económica e para o desenvolvimento tecnológico.

Nenhum modelo de inteligência artificial, por mais avançado que seja, consegue compensar a ausência de conectividade na última milha ou a instabilidade dos serviços de telecomunicações. Por essa razão, a exclusão digital permanece como um dos principais obstáculos à transformação tecnológica do País.

Soberania de dados e o próximo passo

A expansão da capacidade de processamento e armazenamento em Angola constitui um avanço estratégico de grande relevância. O crescimento da infraestrutura nacional de data centers cria condições para alojar e processar localmente aplicações críticas, reforçar a protecção dos dados e reduzir a dependência de plataformas externas.

Do ponto de vista da infraestrutura tecnológica, este poderá ser o desenvolvimento mais importante da próxima década. A soberania digital não resulta de decisões políticas isoladas; constrói-se através da existência de capacidade computacional, armazenamento seguro e redes de comunicações fiáveis instaladas em território nacional.

Angola dispõe de um potencial significativo e já apresenta casos concretos em que a inteligência artificial gera valor económico e operacional. Contudo, o sucesso desta transformação dependerá muito menos dos algoritmos e muito mais dos seus alicerces: conectividade, energia, governação de dados, cibersegurança e qualificação de recursos humanos.

Sem o reforço destes pilares fundamentais, o País corre o risco de limitar-se ao consumo de tecnologias desenvolvidas no exterior, em vez de criar as condições necessárias para desenvolver soluções próprias, adaptadas aos seus desafios e prioridades.

Lei contra informações falsas na internet entra em vigor em Angola e prevê penas até 10 anos de prisão

A Lei Contra Informações Falsas na Internet já está oficialmente em vigor em Angola, após a sua publicação no Diário da República, passando a estabelecer um novo quadro legal para a responsabilização criminal da divulgação de conteúdos falsos no ambiente digital.

O diploma, identificado como Lei n.º 6/26, foi publicado na I Série, n.º 146, de 4 de Agosto de 2026, e define penas que variam entre um e dez anos de prisão, consoante a gravidade da infração.

De acordo com a nova legislação, a divulgação de informações falsas na internet pode ser punida com penas de um a três anos de prisão. Quando os conteúdos incitarem ao ódio ou atentarem contra o bom nome e a reputação de pessoas ou instituições, as penas podem variar entre três e oito anos. Já nos casos em que a divulgação comprometa processos eleitorais ou coloque em causa a segurança do Estado, a pena pode atingir até 10 anos de prisão.

Além da responsabilização dos autores das publicações, a lei estabelece obrigações para as plataformas digitais, que passam a ter de implementar mecanismos de transparência e adotar medidas para a remoção de conteúdos ilícitos, sob pena de responsabilização nos termos da legislação.

A proposta foi apresentada pelo Executivo e aprovada pela Assembleia Nacional em maio deste ano, com 105 votos favoráveis do MPLA, FNLA, PRS e PHA. A UNITA votou contra, com 72 votos, alegando que o diploma contém normas contraditórias e poderá abrir espaço para a criminalização de utilizadores das redes sociais, além de levantar preocupações quanto à transparência da sua aplicação.

Com a entrada em vigor da nova lei, Angola passa a dispor de um regime jurídico específico para o combate à disseminação de informações falsas na internet, num contexto de crescente debate sobre a regulação das plataformas digitais, a segurança no ciberespaço e a liberdade de expressão.

Angola precisa de transformar infra-estruturas em utilização efectiva, competências e resultados económicos, defende Director da New Cognito

Angola dispõe de infra-estruturas tecnológicas modernas, mas precisa de acelerar a sua utilização efectiva para gerar impacto económico e social. A posição foi defendida por Hélio Santana, Director de Serviços ao Cliente da New Cognito, durante a primeira edição do Rota 404 Experience, realizada no dia 1 de Agosto, em Luanda.

Na sua intervenção, subordinada ao tema “Da Incerteza à Oportunidade”, o responsável afirmou que o principal desafio já não passa apenas pela construção de infra-estruturas, mas pela capacidade de transformá-las em serviços digitais, maior conectividade e oportunidades para empresas e cidadãos.

“Angola tem infra-estruturas modernas e de elevado nível, superiores às de muitas realidades africanas, mas continuamos a não tirar pleno partido delas. Precisamos de transformar essa capacidade instalada em utilização efectiva, competências e resultados económicos”, afirmou.

Ao abordar o futuro do trabalho, Hélio Santana destacou que, até 2030, poderão ser criados cerca de 170 milhões de novos postos de trabalho a nível global, enquanto 92 milhões de funções poderão ser substituídas ou profundamente transformadas pela evolução tecnológica.

Segundo o especialista, Angola reúne condições favoráveis para beneficiar desta transformação graças à sua população jovem, ao crescimento da utilização das tecnologias móveis e ao potencial ainda existente para acelerar a maturidade digital.

Apesar das oportunidades, o Director da New Cognito identificou vários obstáculos ao crescimento do ecossistema digital angolano, entre os quais a limitada conectividade de banda larga, os elevados custos de acesso à internet, a escassez de profissionais especializados, a reduzida maturidade digital das organizações e os desafios relacionados com a cibersegurança.

Ainda assim, considera que sectores como FinTech, GovTech, EdTech, HealthTech, AgriTech e logística representam oportunidades para o desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras, defendendo igualmente um maior investimento em Centros de Operações de Segurança (SOC), monitorização contínua e protecção de dados.

Durante a sessão, Hélio Santana incentivou estudantes e profissionais do sector tecnológico a apostarem na especialização, sobretudo nas áreas de programação e integração de sistemas.

O responsável defendeu ainda uma arquitectura tecnológica baseada em sistemas especializados e integrados, em vez de plataformas únicas que concentram todas as funcionalidades, reduzindo assim riscos operacionais e aumentando a resiliência das organizações.

Projecto de satélite partilhado da SADC pretende reforçar conectividade e desenvolvimento tecnológico na região

O Projecto de Satélite Partilhado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) deverá reforçar a conectividade regional e acelerar o desenvolvimento tecnológico dos Estados-membros, através da criação de uma infraestrutura espacial comum para serviços de comunicação, observação da Terra e gestão de emergências.

A visão foi apresentada pelo secretário de Estado para as Telecomunicações e Tecnologias de Informação, Ângelo Miguel Buta João, durante a abertura da 3.ª Reunião Preparatória da SADC para a Conferência Mundial de Radiocomunicações (WRC-27), que decorre em Luanda.

Segundo o governante, o projecto representa uma estratégia de integração regional baseada na partilha de infra-estruturas espaciais, optimização dos recursos disponíveis e desenvolvimento de competências técnico-científicas, permitindo que a região desenvolva soluções próprias para responder aos desafios tecnológicos do continente africano.

“Este projecto representa uma visão estratégica de integração regional, assente na partilha de infra-estruturas, na optimização dos recursos espaciais e no desenvolvimento de competências técnico-científicas”, afirmou.

Além de expandir o acesso às comunicações por satélite, a iniciativa deverá apoiar áreas estratégicas como a monitorização do território, gestão de desastres naturais e prestação de serviços essenciais aos países da SADC.

Durante a intervenção, Ângelo Miguel Buta João destacou que a transformação digital passou a ser um dos principais motores do desenvolvimento económico e social, defendendo uma cooperação regional mais forte para enfrentar os desafios tecnológicos, regulamentares e operacionais do sector.

O governante recordou ainda que Angola desempenha um papel estratégico nas telecomunicações da região, nomeadamente através da transmissão do sinal regional pelo ANGOSAT-2, além da participação activa na harmonização das posições da SADC para a Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027.

Segundo explicou, as decisões que vierem a ser adoptadas na WRC-27 terão impacto directo na evolução das redes móveis, dos sistemas de satélites geoestacionários e não geoestacionários, das comunicações aeronáuticas e marítimas, bem como em serviços científicos, de observação da Terra e outras tecnologias emergentes.

Proposta de Lei da Cibersegurança regressa às comissões da Assembleia Nacional para discussão na especialidade

A Proposta de Lei da Cibersegurança regressa esta segunda-feira (03), às comissões especializadas da Assembleia Nacional, onde os deputados retomam a discussão na especialidade do diploma apresentado pelo Executivo.

A iniciativa legislativa tem como principal objectivo estabelecer um quadro jurídico para reforçar a segurança cibernética em Angola, criando mecanismos de prevenção, protecção e resposta a incidentes que possam afectar redes informáticas, sistemas digitais e infra-estruturas críticas do Estado.

Durante a análise, os parlamentares deverão debruçar-se sobre as medidas propostas para aumentar a resiliência cibernética das instituições públicas e privadas, bem como sobre os instrumentos destinados a proteger os cidadãos e os serviços essenciais face às crescentes ameaças no espaço digital.

A proposta surge num contexto em que a transformação digital tem acelerado em diversos sectores da economia angolana, tornando a cibersegurança um elemento estratégico para garantir a continuidade dos serviços, a protecção dos dados e a confiança nas plataformas digitais.

Depois de concluída a discussão na especialidade, o diploma seguirá para votação final global na Assembleia Nacional, constituindo um passo importante para o fortalecimento do quadro legal da segurança digital em Angola.

Fonte: J’A

Angola aprova diploma para impulsionar os negócios electrónicos

O Projecto de Lei de Autorização Legislativa, discutido e votado na III Reunião Plenária Extraordinária, visa conferir ao Presidente da República, enquanto Titular do Poder Executivo, competência para aprovar o regime jurídico que vai regular a utilização da assinatura electrónica e da certificação digital, instrumentos considerados fundamentais para reforçar a segurança, autenticidade e validade jurídica das transacções e documentos electrónicos.

De acordo com o secretário de Estado para a Comunicação Social, Nuno Caldas Albino, em representação do Executivo, a medida insere-se no processo de modernização da Administração Pública e de promoção da transformação digital no país.

O governante acrescentou que o projecto de lei está alinhado com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) n.º 9 e 11 da Agenda 2030 das Nações Unidas, relativos à inovação industrial, infraestruturas robustas e cidades sustentáveis. A medida visa consolidar a soberania digital de Angola por meio de ecossistemas de confiança que garantam a segurança, a integridade e a resiliência dos serviços públicos do Estado.

“Esta iniciativa resulta da crescente desmaterialização da Administração Pública, da expansão do comércio electrónico e dos serviços digitais, bem como da necessidade urgente de garantir segurança jurídica às transacções desmaterializadas e alinhar o país com as melhores práticas internacionais”, sublinhou.

Com esta iniciativa, explicou Nuno Caldas Albino, o Governo pretende modernizar a Administração Pública, reduzir tempo e custos, e tornar os processos mais céleres e eficientes para o cidadão, garantindo sempre a protecção de dados e a salvaguarda dos direitos dos utilizadores.

Para as empresas, a medida assegurará a facilitação do comércio electrónico, a redução de custos operacionais e a optimização do tempo, além de elevar a confiança nas transacções desmaterializadas, reforçou o secretário de Estado.

O governante acrescentou que este conjunto de instrumentos normativos concorre para a edificação de uma infraestrutura jurídica e institucional robusta, alinhada com as exigências de desenvolvimento da sociedade digital.

O secretário de Estado concluiu que a entrada em vigor do diploma será um passo irreversível para garantir a validade jurídica de actos digitais, permitindo que cidadãos, empresas e instituições realizem transacções seguras, eficientes e em total conformidade com a lei.

IA da Anthropic invadiu sistemas reais de três empresas

A investigação surgiu depois de a OpenAI ter divulgado um incidente semelhante, no qual dois agentes de IA ultrapassaram as restrições de um ambiente de testes e alcançaram serviços externos na internet. Em resposta, a Anthropic analisou mais de 141 mil execuções de avaliação e identificou três casos em que o Claude conseguiu alcançar redes externas e aceder a sistemas reais.

Os incidentes ocorreram durante exercícios do tipo capture-the-flag (CTF), nos quais o modelo recebe a missão de encontrar uma informação secreta numa rede simulada. No entanto, devido a falhas no ambiente de testes, o modelo acabou por interagir com sistemas reais.

A origem do incidente foi um erro de configuração. Um mal-entendido entre a Anthropic e o parceiro externo Irregular fez com que ambientes que deveriam estar isolados permanecessem ligados à internet pública, apesar de o modelo ter sido informado de que não possuía acesso à rede.

Num dos exercícios, a empresa fictícia utilizada no cenário tinha o mesmo nome de uma organização real. Após obter acesso à internet, o Claude encontrou o domínio verdadeiro e tratou-o como parte do desafio. A partir daí, explorou vulnerabilidades básicas, como palavras-passe fracas, serviços sem autenticação, páginas de depuração expostas e falhas de injeção SQL, conseguindo aceder a uma base de dados de produção.

O modelo não utilizou vulnerabilidades desconhecidas nem tentou fugir deliberadamente do ambiente de testes. O sucesso resultou da exploração de falhas de segurança elementares que deveriam ter sido corrigidas através de boas práticas de administração e proteção de redes.

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Os incidentes envolveram o Claude Opus 4.7, o Claude Mythos 5 e um modelo interno de investigação. O caso mais grave ocorreu com o Opus 4.7, que identificou que estava perante um sistema real e, ainda assim, prosseguiu com as ações previstas no exercício. A Anthropic suspendeu imediatamente as avaliações, investigou os incidentes e notificou as organizações afetadas.

O episódio demonstra a importância do isolamento efetivo dos ambientes de teste e da segmentação adequada das redes. Mostra também que vulnerabilidades simples, como credenciais fracas e serviços desprotegidos, continuam a representar riscos significativos quando enfrentam agentes de IA capazes de executar múltiplas etapas de ataque em poucos segundos.

À medida que a IA evolui de simples assistentes para agentes autónomos com capacidade de ação, a segurança perimetral, a segmentação de rede e a contenção dos ambientes de teste tornam-se ainda mais críticas. O incidente demonstra que erros básicos de configuração podem transformar rapidamente um exercício controlado num acesso indevido a sistemas reais.

UNITEL actualiza informação sobre o ciberataque

A operadora divulgou o comunicado às 08h45, ao abrigo do artigo 146.º do Código dos Valores Mobiliários, complementando as informações anteriormente prestadas. A comunicação enquadra-se nos deveres de informação a que a empresa passou a estar sujeita enquanto sociedade cotada.

Segundo a Unitel, o incidente foi detectado às 02h20 de 28 de Julho e afectou os serviços móveis de voz, dados e acesso à Internet em todo o território nacional, com impacto tanto nos clientes particulares como nos empresariais. A operadora refere, contudo, que os serviços fixos de telecomunicações suportados pela rede de fibra óptica e pelos feixes hertzianos, responsáveis pelas comunicações de várias instituições públicas e empresas, permaneceram operacionais e não sofreram qualquer interrupção.

A empresa informa que as equipas técnicas e de cibersegurança activaram de imediato os protocolos internos de resposta e contenção, acrescentando que o incidente se encontra sob controlo. Segundo o comunicado, foram mobilizados todos os recursos humanos e técnicos disponíveis para assegurar a recuperação integral dos serviços no menor prazo possível.

Quando o failover não salva

Reposição progressiva dos serviços

A Unitel informa que a recuperação dos serviços móveis de voz, dados e acesso à Internet começou às 11h45 de 29 de Julho, de forma faseada e por regiões.

À data da emissão do comunicado, encontravam-se parcialmente restabelecidos os serviços móveis de voz, dados, com excepção do SMS, e acesso à Internet nas províncias de Luanda, Bengo, Benguela, Bié, Cuando Cubango, Cuanza-Norte, Cuanza-Sul, Cunene, Huambo, Huíla, Icolo e Bengo, Malanje, Lunda-Norte e Namibe.

A operadora indicou ainda que a reposição parcial dos serviços nas restantes províncias estava prevista para o decorrer do mesmo dia.

No comunicado, a Unitel salienta que nunca tinha enfrentado um incidente com esta dimensão. A empresa afirma dispor de infra-estruturas e mecanismos de cibersegurança robustos, alinhados com as melhores práticas internacionais do sector, incluindo um Centro de Operações de Segurança (SOC), planos de continuidade de negócio, planos de recuperação de desastre e capacidades permanentes de monitorização de ameaças.

A operadora comprometeu-se a manter o mercado, os investidores e os seus clientes informados sobre qualquer desenvolvimento relevante, em cumprimento das obrigações legais aplicáveis às sociedades abertas. O comunicado foi emitido em Luanda.

Quando o failover não salva

A infraestrutura de um operador móvel está entre os sistemas mais redundantes alguma vez concebidos. Núcleos duplicados em localizações geográficas distintas, arquiteturas N+1, cópias de segurança regulares, circuitos com comutação automática e múltiplos níveis de alimentação de emergência fazem parte da concepção normal destas redes. Durante décadas, toda esta engenharia procurou responder à mesma questão: o que acontece se um centro de dados ou um elemento crítico deixar de funcionar?

O incidente que afectou a Unitel, em 28 de Julho, e que privou mais de 20 milhões de clientes de serviços de voz, dados e Internet durante mais de um dia, expôs uma limitação fundamental desse modelo. Toda esta redundância foi concebida para enfrentar falhas acidentais. Não foi concebida para travar um adversário que já se encontra dentro da rede. É precisamente esta diferença entre desastre acidental e ataque intencional que separa o disaster recovery tradicional do cyber recovery de que os operadores modernos necessitam.

O caso da Unitel constitui um exemplo particularmente útil porque a informação tornada pública, embora limitada, ilustra este problema com rara clareza. Os aspectos técnicos descritos baseiam-se em informações divulgadas por órgãos de comunicação social angolanos, citando fontes internas, bem como em inferências efectuadas a partir do comportamento visível da rede. A operadora não confirmou oficialmente a natureza do incidente. Ainda assim, o padrão observado corresponde a cenários amplamente conhecidos na indústria e permite retirar conclusões relevantes independentemente dos detalhes específicos.

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Anatomia de um comprometimento

De acordo com fontes citadas pela revista Economia & Mercado, o ataque terá consistido num ransomware que entrou através de uma aplicação de acesso remoto, encriptou dados e obrigou a uma recuperação profunda do centro de dados. Entre os sistemas afectados encontrava-se a plataforma de billing.

O cenário descrito segue um percurso de ataque relactivamente típico, sendo útil analisar cada fase porque cada uma exige mecanismos de defesa distintos.

Entrada através do acesso remoto

Raramente um ataque desta dimensão começa por atingir directamente o núcleo da rede. Normalmente explora o caminho de menor resistência: uma credencial comprometida, uma VPN vulnerável ou um portal de administração exposto.

O acesso remoto continua a representar uma das superfícies de ataque mais críticas nas organizações modernas. A resposta passa pela implementação sistemática de autenticação multifactor resistente a ataques de phishing, pela aplicação rigorosa do princípio do menor privilégio e pela eliminação de acessos administrativos directos a sistemas críticos sem passagem por bastion hosts devidamente monitorizados.

Movimento lateral

Entre a intrusão inicial e o momento do impacto decorre frequentemente um período de vários dias ou semanas. Durante esse tempo, o atacante explora a rede, obtém privilégios adicionais, identifica sistemas críticos e localiza cópias de segurança.

É nesta fase que os mecanismos de detecção devem actuar. Quando não existe capacidade para identificar comportamentos anómalos, uma intrusão localizada pode transformar-se num incidente de dimensão nacional.

Soluções EDR, monitorização da rede de gestão e mecanismos de alerta para movimentos laterais suspeitos são fundamentais para interromper a progressão do ataque antes da fase de destruição.

Encriptação e activação do ataque

O momento da execução não surge por acaso. É normalmente escolhido pelo atacante em função do impacto pretendido.

No caso da Unitel, o incidente ocorreu na véspera da entrada da empresa em bolsa, um detalhe que sugere que o atacante já se encontrava posicionado e aguardava pela altura considerada mais vantajosa.

Quando a encriptação é activada, a fase preventiva termina. A partir desse momento, a prioridade passa a ser a recuperação.

Por que o MPLS continuou operacional ?

O incidente revelou um comportamento interessante: enquanto os serviços de retalho ficaram indisponíveis, os circuitos MPLS empresariais continuaram a funcionar. Isto sugere que o ataque atingiu principalmente os sistemas de suporte, autenticação e facturação, sem comprometer a infraestrutura de transporte MPLS.

Esta situação demonstra que existia algum nível de segmentação eficaz na rede, capaz de impedir que o ataque se propagasse para todos os domínios da infraestrutura. No entanto, também evidencia que a segmentação interna dos serviços de retalho não foi suficiente para limitar a propagação dentro desse ambiente.

A principal lição é que a segmentação continua a ser um dos mecanismos mais importantes de resiliência. Conceitos como microssegmentação e Zero Trust não impedem necessariamente um comprometimento inicial, mas reduzem significativamente o seu impacto, limitando a capacidade de um atacante se mover lateralmente e transformar um incidente localizado numa falha generalizada.

A pergunta fundamental para qualquer arquitecto de rede é simples: se um sistema for comprometido, quantos outros sistemas ficarão afectados?

O erro de categoria: disaster recovery não é cyber recovery

A razão pela qual um operador de telecomunicações, mesmo com elevada redundância, pode permanecer indisponível durante mais de 24 horas após um ataque reside no facto de o Disaster Recovery (DR) ter sido concebido para responder a falhas acidentais, e não a ataques maliciosos.

O DR tradicional protege contra incidentes como incêndios, inundações, falhas eléctricas ou avarias de infraestruturas, através da replicação de sistemas para um local alternativo. No entanto, este modelo parte do princípio de que a cópia de segurança ou o sistema secundário permanecem íntegros.

O problema é que o ransomware compromete precisamente esse pressuposto. Se os dados ou sistemas afectados forem replicados para o ambiente de contingência, a corrupção propaga-se também para a infraestrutura redundante. Nestas circunstâncias, o failover deixa de ser uma solução, porque o sistema alternativo pode estar tão comprometido quanto o principal.

Quando a corrupção dos dados ou a encriptação são replicadas para os sistemas secundários, a redundância transforma-se num mecanismo de propagação. Ao activar o failover, a organização limita-se a mudar para uma cópia igualmente comprometida.

É por esta razão que organizações com infra-estruturas de recuperação geograficamente distribuídas continuam a enfrentar longos períodos de indisponibilidade após um ataque de ransomware.

A recuperação após um ataque de ransomware é muito mais complexa do que um simples failover. Exige identificar quando ocorreu o comprometimento, restaurar uma cópia de segurança anterior à corrupção, validar a sua integridade, eliminar completamente o atacante da infraestrutura e repor os serviços de forma controlada e faseada.

É neste contexto que surge o cyber recovery, como complemento ao disaster recovery tradicional. Este modelo assenta em backups imutáveis e isolados, validação regular das cópias de segurança, ambientes de recuperação limpos e procedimentos específicos para incidentes cibernéticos, especialmente ataques de ransomware.

Contudo, existe um risco que a recuperação técnica não resolve: a exfiltração de dados. Muitos ataques modernos copiam informação antes da encriptar, permitindo aos atacantes ameaçar a sua divulgação pública. Nestes casos, restaurar os sistemas devolve a disponibilidade dos serviços, mas não recupera a confidencialidade dos dados já comprometidos.

O caso da Unitel demonstra que a redundância tradicional não é suficiente para enfrentar ameaças cibernéticas. A segmentação da rede, a deteção precoce de movimentos laterais, a proteção dos acessos remotos e a existência de backups imutáveis e testados são factores determinantes para reduzir o impacto e o tempo de recuperação. Para operadores de telecomunicações, a resiliência cibernética deixou de ser apenas uma preocupação técnica, passando a constituir uma questão estratégica de continuidade de negócio e até de segurança nacional.

Hackers terão exigido 300 mil milhões de kwanzas à UNITEL após ataque cibernético

Os hackers responsáveis pelo ataque cibernético que afectou a infraestrutura tecnológica da UNITEL terão exigido um resgate de 300 mil milhões de kwanzas para desbloquear os sistemas da operadora. A informação foi avançada pela revista Economia & Mercado (E&M), que cita uma fonte ligada à empresa.

De acordo com a publicação, o valor exigido corresponde ao montante arrecadado recentemente com a venda de 15% das acções da UNITEL na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA). Os atacantes terão solicitado que o pagamento fosse efectuado em criptomoedas, exigência que, segundo a mesma fonte, foi recusada pela operadora.

Ainda segundo a E&M, os atacantes conseguiram aceder à aplicação utilizada para acesso remoto e encriptaram parte dos dados da empresa, obrigando a uma intervenção técnica para recuperar os sistemas afectados.

“Invadiram a nossa aplicação para acesso remoto e conseguiram encriptar os nossos dados. Isso está a levar a uma grande intervenção técnica para recuperar o nosso Data Center”, afirmou uma fonte da UNITEL citada pela revista.

A recuperação dos serviços continua a decorrer de forma gradual. A publicação refere que as equipas técnicas permanecem a trabalhar para estabilizar a rede, incluindo os sistemas de billing, responsáveis pela facturação dos serviços.

A mesma fonte garantiu ainda que, apesar do incidente, os atacantes não conseguiram desviar quaisquer valores financeiros da empresa.

Até ao momento, a UNITEL não confirmou oficialmente os detalhes divulgados pela Economia & Mercado, nomeadamente o valor do alegado resgate nem a relação do ataque com o processo de venda das acções da operadora. A empresa limitou-se a informar que foi alvo de um ataque cibernético que afectou os serviços de voz, dados móveis e acesso à Internet, assegurando que as equipas técnicas e de cibersegurança continuam a trabalhar na reposição integral da rede.