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Segunda-feira, Agosto 24, 2026
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Entre o M-PESA e o Pix: o percurso angolano dos pagamentos digitais

Angola nunca teve um M-PESA. Ao contrário do Quénia, onde as carteiras móveis surgiram antes da expansão dos serviços bancários tradicionais, o país construiu primeiro a sua infra-estrutura bancária e só depois abriu espaço ao mobile money. Cinco anos depois do início desta nova fase dos pagamentos digitais, importa perguntar: o que se ganhou e o que se perdeu com essa escolha?

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Em África, existem dois modelos de referência para a digitalização dos pagamentos. O primeiro é o modelo queniano, assente numa carteira móvel criada por um operador de telecomunicações com forte presença no mercado, que conquista escala rapidamente e só mais tarde é enquadrada pela regulação. O segundo é o modelo brasileiro, onde o banco central assume a liderança, cria uma infra-estrutura pública de pagamentos instantâneos e obriga as instituições financeiras a ligarem-se a essa rede.

Angola não seguiu integralmente nenhum deles. Escolheu um caminho intermédio, menos evidente e mais difícil de avaliar.

Um ecossistema construído em várias camadas

Para compreender a realidade dos pagamentos digitais em Angola é necessário olhar para o ecossistema como um conjunto de camadas complementares.

A primeira é a camada bancária. Desde 2002, a EMIS opera a rede Multicaixa, a principal infra-estrutura interbancária do país para caixas automáticas, terminais de pagamento e cartões de débito. Trata-se da base sobre a qual assenta todo o sistema de pagamentos electrónico nacional. Em 2025, segundo dados da própria empresa, os sistemas por si operados processaram cerca de 3,4 mil milhões de transacções, num valor superior a 46 biliões de kwanzas.

A segunda camada corresponde aos canais digitais associados ao sistema bancário. O Multicaixa Express tornou-se o meio digital mais utilizado pelos clientes dos bancos angolanos. Em 2025 movimentou cerca de 19,7 biliões de kwanzas, registando um crescimento de 56% face ao ano anterior. No mesmo período, o número de utilizadores com cartões activos passou de 1,3 milhões para 2 milhões. Apesar deste crescimento expressivo, mantém uma limitação importante: exige uma conta bancária e um IBAN, servindo sobretudo quem já está integrado no sistema financeiro formal.

A terceira camada é representada pelo KWiK, o sistema de pagamentos instantâneos lançado pelo Banco Nacional de Angola (BNA) em parceria com a EMIS, em 2023. Criado com apoio técnico do Banco Mundial, o KWiK procura funcionar como uma infra-estrutura aberta e interoperável para transferências imediatas. Desde o seu lançamento acumulou cerca de 58,5 milhões de operações, correspondentes a mais de 1,3 biliões de kwanzas. Apenas no primeiro semestre de 2026 processou 8,7 milhões de transacções, num total superior a 557 mil milhões de kwanzas, crescendo 62% em relação ao período homólogo.

A quarta camada é a das carteiras móveis. A Unitel Money iniciou operações em Agosto de 2021 e chegou a cerca de 1,5 milhões de clientes em Janeiro de 2023, apoiada por uma rede superior a 50 mil agentes distribuídos por todas as províncias. A Afrimoney, lançada pela Africell em 2023, anunciou mais de dois milhões de utilizadores registados. Contudo, os dados divulgados pela operadora relativos ao segundo trimestre de 2024 mostravam que apenas 630 mil clientes utilizaram efectivamente o serviço naquele período, dos quais cerca de 250 mil eram utilizadores frequentes.

A estas camadas juntam-se agora novos prestadores de serviços de pagamento não bancários, como o PayPay, já autorizado pelo BNA a aderir ao KWiK.

Comparar Angola com o Quénia é inevitável.

No exercício terminado em Março de 2026, o M-PESA gerou receitas de 182,7 mil milhões de xelins quenianos e representou quase metade das receitas de serviços da Safaricom. O sistema processou 46,4 mil milhões de transacções num valor superior a 41 biliões de xelins, apoiado por uma base de quase 41 milhões de utilizadores activos mensais e mais de três milhões de comerciantes.

Os números falam por si. Enquanto o Quénia conta dezenas de milhões de utilizadores activos, Angola soma aproximadamente 3,5 milhões de utilizadores registados nas suas duas principais carteiras móveis, com apenas uma parte a utilizar regularmente os serviços.

Este é o preço do modelo angolano. A inclusão financeira digital avançou de forma mais lenta do que provavelmente teria acontecido caso o país tivesse apostado cedo num sistema semelhante ao M-PESA.

Ao longo de quase duas décadas, o Quénia permitiu que uma parte significativa da sua infra-estrutura de pagamentos ficasse concentrada num único operador privado. O resultado foi a criação de uma dependência estrutural em relação ao M-PESA e à Safaricom.

Por essa razão, o Banco Central do Quénia encontra-se actualmente a desenvolver um sistema nacional de pagamentos instantâneos. A iniciativa procura criar uma alternativa pública e interoperável, reduzir a dependência de um único actor e aumentar a concorrência.

O exemplo brasileiro ajuda a compreender esta tendência. Com o Pix, o Brasil demonstrou que uma infra-estrutura pública, eficiente e de baixo custo pode desafiar os modelos tradicionais de pagamento. Quando as transferências se tornam instantâneas e praticamente gratuitas, a capacidade dos intermediários para capturar margens elevadas diminui substancialmente.

Angola parece ter aprendido essa lição antecipadamente. O KWiK foi concebido desde o início como uma plataforma interoperável e aberta a bancos e instituições não bancárias. Além disso, o BNA definiu critérios objectivos de adesão obrigatória para os principais participantes do sistema e procurou evitar a fragmentação do mercado.

Em termos estratégicos, a mensagem é clara: o país procura impedir a formação de um monopólio privado sobre os pagamentos digitais.

A lição da África do Sul

Existe, contudo, um terceiro caso frequentemente ignorado neste debate.

O M-PESA foi lançado na África do Sul em 2010 com grandes expectativas. O objectivo passava por alcançar dez milhões de utilizadores. Cinco anos depois, contava apenas com cerca de 76 mil clientes registados e acabou por ser encerrado em 2016.

O fracasso não resultou de limitações tecnológicas. O problema era outro: a maioria da população sul-africana já tinha acesso a serviços bancários convencionais e a mecanismos alternativos de transferência de dinheiro.

A principal lição é que o mobile money não é uma solução universal. O seu sucesso depende do contexto económico e financeiro de cada mercado.

Angola encontra-se numa posição intermédia. Por um lado, ainda possui uma elevada percentagem de população sem acesso a serviços bancários. Por outro, dispõe de uma rede interbancária relactivamente desenvolvida e de canais digitais em crescimento acelerado. Esta combinação explica porque nenhum dos modelos puros, nem o queniano nem o sul-africano, se ajusta totalmente à realidade nacional.

Existe, porém, uma questão que continua por resolver.

Nem o KWiK nem o Multicaixa Express transformam numerário em saldo electrónico. Ambos operam essencialmente entre contas já existentes. Numa economia onde grande parte do comércio informal continua a funcionar com dinheiro físico, a capacidade de realizar operações de depósito e levantamento continua a ser determinante.

É precisamente aqui que as redes de agentes das carteiras móveis fazem a diferença.

Os mais de 50 mil agentes da Unitel Money representam muito mais do que simples pontos de atendimento. Constituem uma rede física de confiança, proximidade e liquidez que nenhum sistema digital consegue substituir exclusivamente através de tecnologia.

O programa “KWiK nos Mercados” reflecte o reconhecimento desta realidade. O sucesso ou fracasso da iniciativa poderá determinar até que ponto o sistema de pagamentos instantâneos conseguirá penetrar no sector informal da economia.

O risco silencioso do modelo angolano

Há ainda uma dimensão menos discutida, mas extremamente relevante.

Grande parte dos pagamentos electrónicos em Angola depende da mesma infra-estrutura tecnológica. Multicaixa, Multicaixa Express e KWiK funcionam sobre plataformas operadas pela EMIS.

Esta concentração simplifica a interoperabilidade e reduz a fragmentação do mercado. Contudo, também aumenta a exposição a falhas operacionais. Sempre que ocorrem problemas técnicos numa plataforma central, o impacto pode propagar-se rapidamente por todo o sistema financeiro.

O trilho digital já existe. O desafio está agora na última milha.

A diversidade de participantes reduz o risco de captura económica. Não elimina, porém, o risco associado à dependência de um único operador de infra-estrutura.

É possível que Angola venha a tornar-se um dos primeiros países africanos a alcançar uma ampla inclusão financeira digital sem passar por uma fase dominada por carteiras móveis de operadores de telecomunicações. Se tal acontecer, o país terá antecipado uma tendência que hoje começa a emergir noutras geografias.

A evolução dependerá de quatro factores fundamentais: o custo de utilização do KWiK para comerciantes, o modelo de liquidação utilizado pelo sistema, o número real de utilizadores activos das carteiras móveis e, sobretudo, a capacidade do KWiK de chegar à economia informal.

No fim de contas, o futuro dos pagamentos digitais em Angola não será decidido nos centros de processamento de dados nem nas salas de regulação. Será decidido nos mercados, nas pequenas lojas, nos bairros e nas ruas, onde o numerário continua a dominar.

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