[Entrevista] Irineu Souto, desenvolvedor da versão digital do jogo “Kiela”

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Irineu Souto
Irineu Souto, desenvolvedor do “Kiela”

A coluna de entrevistas está de volta, hoje temos uma conversa especial com o criador da versão digital de um dos jogos com mais popularidade em Angola, mas que tinha(tem) chances de ser um sucesso em qualquer geração, em qualquer país.

Bom, falaremos com “Irineu Souto“, o homem que tirou o “Kiela” dos bairros ao redor do país e passou para o computador.

Não sabe o que é “Kiela”? Nada melhor do que o criador da versão digital do jogo, para explicar:
1. MF: Seguindo a regra, vamos a uma apresentação do nosso entrevistado.

IS: Irineu Souto, Engenheiro Informático pela Universidade Católica de Angola, 28 anos.

2. MF: Pode falar sobre o jogo, as suas origens, as diversas denominações ao redor do país, algumas regras

IS: Não há como falar no jogo sem mencionar a sua origem Africana e a sua datação (não existe consenso entre os estudiosos sobre quando exactamente os jogos da família Mancala foram criados. Existem registos que apontam à 1400 A.C, mas há quem defende mais de 2000 A.C., outros 7000 A.C. ou até mesmo no início das civilizações, logo, com facilidade há quem afirme que é o jogo mais velho do mundo, obviamente mesmo quando comparado com outros jogos de tabuleiro como o Xadrez).

Existem várias histórias sobre a sua origem, mas todas que tive acesso contam que foi criado por um sábio ancião de formas a evitar que duas tribos se confrontassem em sangrentos campos de batalhas, e ai vem a parte interessante, se por instantes considerarmos que uma batalha justa é quando temos as partes envolvidas equilibradas na sua força bruta e regermos os confrontos com algumas regras então o desfecho da guerra não seria a favor do melhor estratega? Se pudéssemos passar estas regras para um tabuleiro, então qual seria a lógica dos confrontos físicos se as disputas entre povos poderiam ser resolvidas em uma batalha sem sangue onde os maiores estrategas de cada lado se confrontam. Ao conhecermos estes contos, e se decidirmos acreditar neles, surge naturalmente a pergunta “será que estamos de facto a progredir?”.

Quanto ao nome, este vária de região para região tal como algumas regras (ex: o número de sementes/pedrinhas e de buracos no tabuleiro/chão), havendo inclusive relatos de haver mais de 800 designações para este jogo e infelizmente alguns dos termos mais usados no nosso país tais como Buraca, Wela e Kiela não são dos mais divulgados a nível do mundo, na realidade, se pretendermos fazer uma pesquisa mais apurada sobre o jogo e as suas ramificações pode ser mais proveitoso procurarmos pelo designação desta família de jogos que é Mancala algumas vezes também chamado de Sowing.

3. MF: Qual foi a sua inspiração para escolher este jogo e não escolher outro jogo de “tabuleiro”, por exemplo o Xadrez?

IS: Para melhor responder esta pergunta devo dizer o jogo foi desenvolvido por duas vezes, a primeira por sugestão do meu ex-colega e grande amigo Luis Denivaldo, que conhecia alguém interessado no jogo, e aproveitamos introduzir como projecto de uma disciplina que estava a decorrer no mesmo semestre, entretanto perdemos o jogo devido a um assalto. E a segunda, a pedido de alguns ex-colegas que não tiveram a oportunidade de ver o jogo a funcionar e me incentivaram e motivaram a voltar a desenvolver para apresentar na primeira Feira de Projectos da Universidade Católica de Angola, um evento que era organizado por estudantes e para estudantes com o intuito de partilha de informação, experiência e motivação.

4. MF: Em que plataforma(s) desenvolveu o jogo e quanto tempo levou a fazê-lo?

IS: As duas vezes o jogo foi desenvolvido da mesma forma, usando a plataforma Java o que garantia a portabilidade entre os diferentes Sistemas Operativos. Quantos aos tempos, a primeira vez foi em pouco mais de duas semanas e na segunda o tempo foi o de um final de semana intensivo, onde começou-se a desenvolver em uma sexta-feira e terminou-se na segunda de tarde, na hora que estava marcada a minha apresentação na referida Feira de Projectos.

5. Teve dificuldades em encontrar informações online sobre o jogo?

IS: Se considerarmos que Kiela é o termo a qual o povo Bantu denomina o jogo e que na altura, 5 anos atrás, Angola e até mesmo Africa não tinham/tem a cultura de produzir conteúdos para a Web, o raciocínio logico aconselhava a priorizar outras fontes de informação, incluindo o conhecimento popular, que, segundo a nossa experiência, surpreendentemente denotou que existe muito desconhecimento sobre o jogo e suas regras. Mas ainda assim recorremos a web para validar o pressuposto e ainda hoje quando pesquisamos pelo termo ‘Kiela’ os motores de busca, não costumam retornar muita informação relevante e na altura que foi desenvolvido o retorno era ainda menos significativo, mas felizmente tive acesso ao livro “Kiela: Um Jogo de Origem Africana” de Bernardo Campos, livro este, que veio junto com a solicitação original de criação do jogo.

 6. MF: Já agora, qual foi o feedback dos utilizadores?

IS: O Feedback dos utilizadores tem sido satisfatório e bastante diverso nas emoções demonstradas, de formas a melhor espelhar isso considerem o seguinte episódio:

Por convite da nossa boa professora Ana Paula Fonseca e incentivo do proeminente Engº Flávio Cardoso, o Kiela foi um dos projectos expostos na Feira Educangola de 2012 pela Universidade Católica de Angola – UCAN e a visita mais celebre que tive o privilegio de presenciar durante o tempo que estive presente, foi a da nossa Ministra do Ensino Superior e Tecnologias, Dra. Candida Teixeira, que enquanto eu apresentava sua excelência dizia em voz baixa “wela wela wela” podem estar certos que foi um momento emocionante para mim e foi quando me apercebi de como o jogo faz parte da nossa realidade, mesmo se não nos vimos directamente ligados a ele ou ao seu impacto cultural, nos apercebemos que ele poderá ter feito parte da experiencia de vida dos nossos pais e avós como decerto fez dos nossos antepassados mais distantes e agora passado para os meios eletrónicos poderá fazer parte da nossa realidade e quem sabe de nossos descendentes.

7. MF: Quais são os planos para o futuro do “Kiela”?

IS: Temos agendado a migração para web, onde traremos uma versão completamente compatível com tablets e smartphones.

8. MF: Tem outros projectos na área de jogos, podia falar deles?

IS: A cerca de 6 anos, enquanto estudante universitário cheguei a desenvolver um simulador do jogo de cartas “Paciência” de formas a atender um desafio colocado por aquele que entendo ser um dos maiores professores que tive naquela casa, o motivado professor Manuel Meneses, que adotou como padrão desafiar os estudantes a fazerem um pouco mais, por ter aceito embarcar nos seus desafios, fui convidado a desenvolver o simulador que era designado “Paciência Russa” isto, pelo que vim a entender depois, porque o enunciado não se limitava a resolver o problema de achar a melhor jogada, em vez disso, estava orientado a colocar obstáculos ao desenvolvedor, fundamentalmente a nível de algoritmos.

O último foi a versão digital do sistema de apostas do Totoloto, que desenvolvi a poucos meses. O projecto além de cobrir todas as regras do jogo (ex: apostas múltiplas) é munido de algumas funcionalidades extras que fazem algumas adendas nos quesitos de segurança, controlo e facilidade de comunicação com a central. Uma destas funcionalidades é a de geração de um QR Code, que se descodificado com um dispositivo despreparado irá se deparar com texto encriptado, mas se for com um dos dispositivos equipados com a referida solução este fará a validação do Ticket e a apresentação no visor dos dados relevantes.

Entretanto, e bem antes do Totoloto, aproximadamente 2 anos depois do jogo de Paciência, sendo 1 ano depois do projecto Kiela, surgiu a ideia de desenvolvermos um MMORPG do tipo Sandbox, com tudo que tinha direito, começamos por criar o conceito, escrever a estória e documentar as regras do universo do jogo, não queríamos seguir a onda, a preferência era algo de raiz onde o universo seria criado e influenciado por regras precisas criadas por nós, chegamos a desenvolver a base de dados, mas o que viemos a descobrir, e que deve ser obvio para muitos leitores é que o trabalho para se fazer algo assim é exponencial, se tivéssemos de programar usando os métodos mais comuns levaríamos demasiado tempo. Desde então tenho estado a trabalhar no que a meu ver foi a maior limitação para o desenvolvimento deste projecto, os “métodos comuns”, criando filosofias e ferramentas, e validando as ideias criadas junto a alguns nichos de desenvolvedores e submetendo-me a algumas apresentações, a recepção tem sido boa e a colaboração também.

9. MF: Há muitos programadores novos em Angola, quer deixar alguns conselhos, orientações para os que querem investir na área de jogos?

IS: Jogos são focados na experiência do utilizador, com isso em mente, força pra frente.

Veja algumas Imagens do Kiela:

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Desde já agradecemos ao Irineu pela disponibilidade e esperamos que o jogo tenha a sua expansão o quanto antes. Nós estaremos aqui para acompanhar e apoiar…