27.2 C
Angola
Segunda-feira, Abril 20, 2026
Início África Fraude com IA ameaça o boom africano do dinheiro móvel

Fraude com IA ameaça o boom africano do dinheiro móvel

A economia africana de dinheiro móvel, avaliada em 1,4 biliões de dólares, enfrenta uma pressão crescente por parte de uma nova geração de fraude, à medida que os cibercriminosos recorrem à inteligência artificial para explorar os próprios sistemas que impulsionam a inclusão financeira no continente.

129

De acordo com a GSMA, a África Subsariana representa actualmente quase dois terços do valor global das transacções de dinheiro móvel, com 1,2 mil milhões de contas registadas e 341 milhões de utilizadores activos.

Em entrevista exclusiva ao IT Web Africa, Thalia Pillay, CEO e co-fundadora da Orca Fraud, alertou que o aumento da adopção acelera igualmente a fraude.

O dinheiro móvel é a grande história de infra-estrutura da nossa geração, mas está também, silenciosamente, a tornar-se a sua grande história de fraude“, afirmou.

Pillay citou dados do sector que indicam que 90% dos fornecedores de dinheiro móvel foram alvo de fraude de identidade no último ano, enquanto 88% sofreram ataques de engenharia social. Em toda a África, estima-se que o cibercrime retira anualmente mais de quatro mil milhões de dólares à economia formal.

O ministro das TIC do Zimbabué, Tatenda Mavetera, colocou o impacto local em perspectiva, revelando que o país perde mais de 30 milhões de dólares por ano em fraude de dinheiro móvel, com os ataques de phishing a aumentarem mais de 40%.

“Temos assistido a um aumento das burlas de dinheiro móvel e de ataques de phishing dirigidos à nossa economia em crescimento”, declarou Mavetera. “Cada nova porta digital torna-se um potencial ponto de entrada para a fraude impulsionada por IA”.

Pillay alertou que o panorama de ameaças está a evoluir rapidamente. As tipologias de fraude incluem agora ataques de troca de SIM, identidades sintéticas geradas por IA e burlas com deepfake, em que os criminosos clonam vozes para induzir empresários a autorizar pagamentos.

Os burlões utilizam hoje IA para gerar identidades, documentos e até artefactos de verificação biométrica capazes de passar nos controlos KYC em larga escala. Isto muda fundamentalmente as regras do jogo para as instituições financeiras“, sublinhou.

Um dos principais desafios reside na incompatibilidade entre as ferramentas globais de combate à fraude e as realidades dos mercados africanos. Muitos sistemas foram concebidos para ambientes com conectividade estável, sistemas de identificação formais e comportamentos de utilizador previsíveis — condições que nem sempre se verificam em África.

“As ferramentas globais tendem a bloquear o crescimento em excesso ou a proteger o sistema de forma insuficiente”, disse Pillay. “Os mercados africanos exigem modelos treinados localmente, que compreendam as redes de agentes, os dispositivos partilhados e o uso de múltiplos SIM”.

O crescimento acelerado dos pagamentos interoperáveis agrava o problema. As transferências transfronteiriças entre bancos e carteiras móveis estão a aumentar vertiginosamente, criando novas vias de branqueamento de capitais que os burlões exploram mais rapidamente do que os reguladores conseguem acompanhar.

“A fraude não respeita fronteiras. Os fundos podem atravessar três países em poucos dias, mas a maioria dos sistemas anti-fraude ainda opera em silos”, concluiu Pillay.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui