A reduzida presença pode, à primeira vista, parecer um sinal positivo. O próprio relatório, contudo, recomenda cautela nessa interpretação. Em vários países africanos, os números baixos podem reflectir dificuldades na comunicação e no registo de incidentes, e não necessariamente uma menor exposição ao cibercrime.
Os poucos dados
Nas deteções de vulnerabilidades exploráveis da Shadowserver Foundation, Moçambique representa 1,9% do total africano. O valor coloca o país ao nível do Gabão, abaixo de Angola, com 3,2%, e muito distante da África do Sul, que concentra 43,6%.
O relatório identifica entre os sistemas mais expostos routers desactualizados, VPN vulneráveis e plataformas web de gestão documental com configurações inadequadas.
A segunda referência é positiva. O programa Cyber4Dev, financiado pela União Europeia, incluiu Moçambique nas iniciativas de formação sobre políticas nacionais de cibersegurança e resposta a incidentes, juntamente com a Gâmbia, Malawi, Congo e Seicheles.
No restante relatório, predominam as ausências:
- No ranking de botnets da FortiGuard Labs, liderado por Angola com 37,95%, Moçambique integra o grupo “outros”, responsável por 7,08% das deteções.
- O país não figura entre os cinco principais emissores de sextorsão nem assume peso individual nas deteções de ransomware apresentadas.
- Também não aparece entre os 17 países cujos avanços legislativos em 2025 receberam destaque no relatório.
Ausência ou subnotificação?
O relatório fornece elementos que ajudam a interpretar esta escassez de dados. Entre os países inquiridos, 89% identificam a subnotificação como um problema generalizado. Entre as causas apontadas estão a ausência de mecanismos formais de comunicação, o receio de danos reputacionais, a limitada capacidade forense e a incerteza quanto às obrigações legais.
A INTERPOL utiliza uma explicação semelhante para a África Central: a aparente baixa incidência de ransomware pode resultar da subnotificação e não, necessariamente, da ausência deste tipo de crime.
Segundo o relatório, apenas cinco países estabelecem prazos fixos para a comunicação de incidentes: Nigéria, Quénia, África do Sul e Maurícias exigem a notificação no prazo de 72 horas, enquanto o Gana estabelece 24 horas. Moçambique não integra esta lista.
O contexto regional também exige atenção. A África Austral surge como uma das regiões particularmente expostas às ciberameaças, enquanto a cooperação entre as forças policiais e as equipas nacionais de resposta a incidentes permanece desigual. A presença de vulnerabilidades exploráveis em Moçambique demonstra a existência de uma superfície de ataque, mas os dados disponíveis não permitem determinar por si só a verdadeira dimensão dos incidentes ocorridos no país.






