O instrumento de compras online, denominado Gateway de Pagamentos Online (GPO), começou a ser implementado em 2020, mas os seus resultados começaram a aparecer em 2021, coincidentemente a altura em que as restrições impostas pela covid-19 fizeram acelerar o e-commerce no mundo, provocando um momento de viragem na digitalização e nos hábitos de consumo.
O que na altura parecia apenas ser uma febre imposta pelas circunstâncias da pandemia tornou-se numa rotina cada vez mais comum. Hoje no mundo, o e-commerce já vale mais de 20% no comércio global, obrigando ao reposicionamento das grandes cadeias comerciais e a uma presença mais activa nas plataformas web e em aplicações móveis.
Em Angola, apesar da fraca literacia digital e financeira, as compras online estão a ser capazes de quebrar essa barreira, ao consolidarem-se como forma de adquirir serviços e produtos mais segura, cómoda e ágil. No País, o grosso das compras online é feito em restaurantes e cadeias de fast food, lojas de equipamentos tecnológicos, vestuário e produtos de beleza ou de bem-estar.
Em termos práticos, com a implementação da GPO, os comerciantes com lojas virtuais passaram a dispor nas suas plataformas de um terminal de pagamentos virtual, equivalente a um Terminal de Pagamento Automático (TPA) físico, que funciona de forma segura e escalável, permitindo acompanhar os pagamentos em tempo real e efectuar a gestão de receitas e recursos associados à sua conta.
Por outro lado, os clientes realizam as compras por meio da aplicação Multicaixa Express (MCX Express) e recebem confirmação imediata dos pagamentos efectuados em plataformas de e-commerce. Para isso, é necessário possuir uma conta activa no MCX Express.
Em 2023, as compras online ganharam uma nova modalidade, que se traduziu num crescimento cada vez mais consolidado: o TPA Multicaixa Code. Este mecanismo permitiu que as lojas físicas sem aplicações ou páginas webs de vendas online, mas que desejassem oferecer uma forma de pagamento sem necessidade de um TPA físico, passassem também a aderir aos pagamentos por QR code (um código que funciona como um TPA virtual, através do qual os clientes pagam lendo um adesivo fixado no estabelecimento comercial).
Assim, os pagamentos online ganharam mais um instrumento para quebrar as barreiras estruturais do sistema financeiro e dos serviços de pagamento do país.
Nos três primeiros meses deste ano, as compras online com QR Code cresceram, 217%, para 3,60 mil milhões Kz, face ao mesmo período de 2024.
Ainda assim, no conjunto dos pagamentos virtuais, o QR Code representa apenas 7%, sendo que a maioria das compras online continua a ser efectuada através do número de telemóvel associado ao MCX Express.
Apesar do crescimento relevante registado nos últimos anos, as compras online representam apenas 2% do total das transacções realizadas na rede Multicaixa entre Janeiro e Março (cerca de 2,78 biliões Kz). Isto mostra que o mercado do e-commerce ainda tem muito caminho a percorrer, e que os hábitos de consumo e pagamento estão longe de atingir o nível de países como o Brasil e Portugal, onde as lojas virtuais ganham terreno à medida que os consumidores adoptam um perfil cada vez mais digital.
Na realidade angolana, tal como acontece no resto do mundo, as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs) e as startups são os grandes protagonistas da evolução das compras online, por estarem mais propensas à digitalização e vitarem os custos e a gestão de infraestruturas físicas complexas.
O caminho está traçado. A combinação entre a expansão das MPMEs, a crescente adesão ao QR Code e a consolidação do MCX Express como meio de pagamento do quotidiano sugere que as compras online em Angola deixaram de ser uma tendência e começam a tornar-se numa realidade. O grande desafio passa por acelerar a literacia digital e financeira, ampliar e melhorar a cobertura da rede móvel e fixa e outras infraestruturas tecnológicas de apoio ao ecossistema digital.






