Em África, as operadoras de telecomunicações estão a redefinir o mercado do streaming no continente, e a MTN é o exemplo mais claro desta viragem. Ralph Mupita, presidente e CEO do grupo, reconheceu que, apesar dos mais de 300 milhões de subscritores, cerca de 45% dos clientes da MTN nunca acederam à internet e permanecem na era da voz.
Na sua perspetiva, a cobertura de rede é um problema praticamente resolvido após duas décadas de investimento. O verdadeiro desafio agora é a utilização: o consumo médio de dados, atualmente de 14 gigabytes mensais por cliente, deverá mais do que duplicar nos próximos anos, num percurso semelhante ao da Índia. O problema é que o valor gerado por esse tráfego é capturado pelos fornecedores OTT, e a MTN recusa-se a ser apenas um “dumb pipe”.
A resposta mais recente é a MTN One TV, que combina televisão em direto, produções locais e programação internacional, sob um modelo flexível que inclui conteúdos gratuitos, publicidade, pay-per-view e subscrições. A verdadeira inovação, porém, está no pagamento: a plataforma aceita deduções de saldo, carteiras de Mobile Money e outros métodos locais, o que contorna barreiras como o acesso limitado a cartões bancários.
É uma mudança de abordagem face a tentativas anteriores, como o MusicTime em 2021 ou as parcerias com a Disney+ e a Viu. A One TV representa integração vertical: a MTN passa a deter a plataforma, os canais de pagamento e a relação com o cliente.
Onde estão realmente armazenados os dados de África?
Nos mercados africanos, a distribuição parece ser um ativo mais defensável do que a propriedade de conteúdos. Um inquérito da Broadcast Media Africa revelou que 35% dos operadores não conseguem garantir uma transmissão fiável devido a problemas de conectividade, uma fragilidade que penaliza qualquer serviço de streaming, mas que as operadoras, donas das próprias redes, conseguem mitigar.
O conteúdo continua a pesar na diferenciação, e as plataformas globais sabem-no: a Netflix lançou o programa ScreenCraft Pathways na África do Sul e a Amazon expandiu o Prime Video no país. Ainda assim, o conteúdo diferencia, mas a distribuição gera escala e receitas sustentáveis.
A MTN não está sozinha neste movimento. A Airtel Africa oferece o Airtel TV desde 2020, a Vodacom lançou a Value News Network em dezembro de 2025 e a Canal+ tornou-se o primeiro operador a distribuir a Netflix em 24 países africanos francófonos. O padrão é consistente: as operadoras transformam-se de fornecedoras de infraestrutura em guardiãs do acesso ao conteúdo.
Esta viragem já atraiu a atenção dos reguladores, com novas regras da COMESA (Mercado Comum da África Oriental e Austral), a visar grandes plataformas digitais que funcionam como portas de entrada críticas. Há também uma tensão estrutural de fundo: as operadoras deverão investir mais de 76 mil milhões de dólares em redes até 2030, enquanto os fornecedores OTT capturam a maior parte do valor sem pagar pelas infraestruturas de que dependem.
Em África, onde o dinheiro móvel e o saldo de chamadas dominam os pagamentos, quem detém a relação de faturação tem uma vantagem estrutural. A verdadeira batalha das plataformas não se trava em torno de quem produz os melhores conteúdos, mas de quem é dono da infraestrutura de distribuição e pagamento.






