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Domingo, Maio 31, 2026
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Data centers em Angola: quais têm certificação internacional?

Angola deu passos concretos na construção de infraestrutura digital certificada. Uma consulta à base de dados do Uptime Institute, a entidade americana que há mais de 30 anos define os padrões globais de desempenho, resiliência e disponibilidade para data centers, revela que o país conta actualmente com cinco instalações registadas, todas classificadas com o nível Tier III e todas localizadas em Luanda.

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Os titulares das certificações dos centros de dados em Angola são nomes centrais da economia e do sistema financeiro angolano: data center da MSTelcom, subsidiária do Grupo Sonangol; o Banco Millennium Atlântico, através do seu CFIN Atlântico Data Center em Tatatona; a Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), com dois data centers, o Centro Informático Seguro 1 (CIS I) e o Centro Informático Seguro 2 (CIS II); e a Raxio Angola, subsidiária local do grupo africano Raxio, com o seu AG1.

O que significa classificação Tier III

A classificação Tier III é o terceiro nível numa escala de quatro e garante redundância de componentes, manutenção concorrente, ou seja, é possível intervir em sistemas sem interromper a operação, e uma disponibilidade anual de 99,982%, o que corresponde a um tempo máximo de inactividade de 1,6 horas por ano. Para uma instituição financeira, uma operadora de telecomunicações ou um organismo do Estado que aloja dados sensíveis, esta certificação é uma garantia técnica e reputacional de primeira ordem.

O processo de certificação do Uptime Institute divide-se em três etapas distintas. A primeira, o Tier Certification of Design Documents (TCDD), valida os documentos de projecto antes da construção. A segunda, o Tier Certification of Constructed Facility (TCCF), confirma que a instalação foi edificada em conformidade com o projecto aprovado. A terceira, e mais exigente, é o Tier Certification of Operational Sustainability (TCOS), que avalia a capacidade operacional contínua da instalação ao longo do tempo.

Nenhum data center em Angola detém ainda o TCOS. Dos cinco registados pela Uptime Institute, três alcançaram as duas primeiras etapas, o CFIN Atlântico do BMA e os dois CIS da EMIS, enquanto o AG1 da Raxio e o da MSTelcom têm apenas a certificação de design concluída.

O Data Center e Cloud Nacional do Governo

É neste contexto que ganha relevo a situação do Data Center e Cloud Nacional do Governo, inaugurado a 28 de Abril deste ano pelo Presidente da República, João Lourenço. A instalação, desenvolvida no âmbito de um Memorando de Entendimento com os Emirados Árabes Unidos e considerada um dos maiores investimentos tecnológicos já realizados pelo Estado angolano, ainda não consta da lista do Uptime Institute.

Segundo o jornal Expansão, na sua edição número 878, os módulos do data center e cloud do Governo foram certificados com o nível Tier III, mas o edifício onde foram instalados ainda não tem o selo de garantia do Uptime Institute. O semanário apurou junto do Instituto Nacional de Fomento da Sociedade de Informação (Infosi) que os 12 contentores foram certificados, mas a instalação física em Camama ainda aguarda a avaliação da própria Uptime. André Mpumba, director-geral do Infosi, confirmou ao Expansão que a instituição está à espera de que os técnicos do Uptime visitem as instalações para avaliação e consequente certificação, sem adiantar datas para as auditorias.

A razão técnica está na natureza da tecnologia adoptada. A certificação Tier-ready, atribuída em fábrica ao módulo, não equivale à certificação da instalação enquanto infraestrutura operacional integrada. Trata-se de uma certificação parcial que, como o próprio Uptime Institute esclarece, não garante a operação do data center enquanto conjunto. Para que a instalação passe a figurar na lista oficial, será necessário submeter o local às auditorias completas de construção e design realizadas pela entidade certificadora. Enquanto isso não acontecer, a operação de alojamento de dados de instituições públicas e privadas naquela infraestrutura fica tecnicamente sem o reconhecimento internacional.

A Paratus e o caso das certificações alternativas

A situação da Paratus Angola ilustra bem uma realidade comum no mercado africano de data centers: é possível operar infraestruturas de elevada qualidade sem recorrer à certificação do Uptime Institute. A operadora pan-africana possui dois data centers em Luanda, no Patriota, projectados segundo os padrões Tier III, e anunciou a construção do que será o primeiro data center Tier IV by design de Angola, num terreno de 30.000 metros quadrados com capacidade para mais de 2.000 armários e uma potência de TI superior a 10 MW.

No entanto, nenhuma das instalações angolanas da Paratus consta da lista oficial do Uptime Institute. A empresa optou por um caminho diferente de reconhecimento internacional, tendo obtido as certificações PCI-DSS, que garante os mais elevados padrões de segurança para dados de pagamento com cartão; ISO 9001, relativa à gestão da qualidade; e ISO/IEC 27001, que certifica a gestão da segurança da informação. Estas são normas internacionalmente reconhecidas e relevantes para o mercado corporativo e financeiro, mas situam-se num domínio diferente da certificação Tier do Uptime Institute.

A distinção é importante. Quando uma instalação é descrita como “Tier III by design”, significa que foi projectada segundo os princípios do padrão Tier III, mas sem que o Uptime Institute tenha auditado e emitido certificação formal. Quando uma instalação consta da lista do Uptime Institute com TCDD ou TCCF, significa que a entidade certificadora verificou presencialmente os documentos de projecto ou a própria construção. São dois níveis de reconhecimento distintos, com processos e implicações diferentes para quem contrata serviços de alojamento de dados.

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